A greve de 1997

O tema de hoje é Copa Libertadores. Sim. A principal competição do continente e da qual o Cruzeiro é o único time de Minas Gerais com duas conquistas. Aos atleticanos, diante da inferioridade numérica de títulos, só restava uma alternativa. Desqualificar as que o Cruzeiro já tinha quando, enfim, o clube alvinegro conseguiu colocar o seu escudo na taça, 54 anos depois que a mesma foi disputada pela primeira vez.

A desqualificação atleticana parte de duas premissas, uma para cada conquista do Cruzeiro. A de que em 1976 se dava mais importância ao título estadual, completamente infundada em uma época em que não se existia o papo de priorizar competição A ou B, mas foco para outra discussão; e a de que em 1997 os clubes argentinos estavam em greve, abrindo caminho para a conquista da Raposa.

A base do argumento atleticano está contida em um fato real, mas que não teve impacto algum na competição. Para isto, basta uma simples pesquisa de datas e das escalações do Racing, única equipe argentina que, efetivamente, poderia ter sido influenciada pela greve, para saber que se trata de mais uma invenção alvinegra.penas-que-e-mentira-02-01

Uma Matéria da Folha de São Paulo de 30 de Julho de 1997 explica que a greve tinha se iniciado na sexta-feira anterior a disputa decisiva entre Sporting Cristal e Racing por uma vaga na decisão da Libertadores (25/07/1997 – na realidade, a votação que aprovou a greve ocorreu no dia 23/07, data do primeiro jogo da semifinal) e havia sido mantida pelo sindicato dos jogadores argentinos em reunião realizada naquela data. Na ocasião, portanto, a Copa Libertadores de 1997 já encontrava-se na fase semifinal e dos três representantes do país, apenas o Racing permanecia no torneio, uma vez que os demais semifinalistas eram Sporting Cristal, Colo Colo e Cruzeiro.penas-que-e-mentira-02-02

Naquele ano, River Plate (campeão da Libertadores 1996), Racing (campeão do Apertura 1996) e Vélez Sarsfield (campeão do Clausura 1996) representavam a Argentina na Libertadores. Naquela época, aliás, a classificação para a competição já era um trunfo importantíssimo e apenas os campeões no Brasil e na Argentina disputavam o torneio. Cruzeiro (campeão da Copa do Brasil 1996) e o Grêmio (campeão brasileiro de 1996) representavam o Brasil. Segundo este modelo, o Atlético Mineiro, vice-campeão brasileiro de 2012, sequer teria disputado a Libertadores que venceu. Mas esta é outra história.

Sobre os argentinos, ainda que não tenham cruzado o caminho do Cruzeiro, eram três equipes fortes e que já haviam dado demonstrações de poder no torneio nos anos anteriores, a começar pelo River Plate que defendia o título e, devido a isso, estreou nas oitavas-de-final conforme ocorria na época. O adversário foi o Racing, de quem falaremos mais adiante.

Considerado um dos melhores Rivers da história, a equipe que enfrentou o Racing conquistou além da Libertadores de 1996 a Supercopa da Libertadores da América no mesmo 1997 e em 1999, já em seu ocaso, perdeu a Recopa da Libertadores para o Cruzeiro, disputa gerada justamente pelos títulos obtidos pelas equipes em 1997 (não houve data para a disputa em 1998). Além disso, foi tricampeã argentina em 1996, 1997 e 1998, ano em que caiu para o Vasco na semifinal da Libertadores.

Na Libertadores de 1997, contudo, a participação do River foi encerrada já nas oitavas após cair nos pênaltis contra o Racing. No tempo normal, empates em 3X3 em Avellaneda e 1X1 no Monumental de Nuñes. Na equipe titular millionaria, porém, estavam campeões de 1996 como Hernán Diaz, Celso Ayala, Juan Pablo Sorín, Enzo Francescolli e Marcelo Gallardo, que naquela partida formou o ataque com Marcelo Salas, novidade daquele ano. Um verdadeiro esquadrão formado por atletas que tiveram carreira de destaque em suas seleções nacionais e que no dia 07 de maio de 1997, dois meses antes da deflagração da “greve que atrapalhou os argentinos daquela Libertadores” se despedia da competição.

Também em maio e nas oitavas-de-final, uma outra força argentina cairia. O Vélez Sarsfield, mais um time experiente e com uma Libertadores recente no currículo: A de 1994, quando encerraram a série de títulos do São Paulo na competição (1992-1993) em pleno Morumbi. A conquista continental, aliás, foi complementada com uma vitória contundente por 2X0 sobre o Milan no Mundial Interclubes no final do ano. No entanto, na Libertadores de 1997 ficaram pelo caminho diante dos peruanos do Sporting Cristal, futuro rival do Cruzeiro na competição.

A eliminação ocorreu após um empate em 0X0 em Lima e uma derrota por 1X0 em Buenos Aires. Em campo no duelo de volta, porém, estavam Chilavert, Pelegrino, Raul Cardozo, Zandoná, Marcelo Gómez, Cláudio Husaín e Bassedas. Nada menos que sete dos que três anos antes triunfaram sobre o São Paulo no Morumbi.

Atestada a qualidade dos argentinos que caíram nas oitavas em 1997 (Newell’s e Arsenal de Sarandi, argentinos rivais do Atlético Mineiro em 2013, bem como o Vélez dos anos 2000 e o Tigre não faziam nem sombra a estes times. A exceção em 2013 ficava por conta do Boca, vice-campeão de 2012, mas de campanhas medíocres nos anos próximos), chegamos ao assunto greve, uma vez que o Racing ainda estava na competição quando a disputa surgiu no futebol argentino.

O primeiro confronto entre Racing e Sporting Cristal ocorreu no dia 23 de julho de 1997, dia da deflagração da greve na Argentina. Duelo movimentado que terminou em 3X2 para o Racing em Buenos Aires, abrindo vantagem na disputa por uma vaga na decisão.

Naquela ocasião, como noticiou a imprensa argentina, o Racing não aderiu a greve, uma vez que se tratava de uma competição CONMEBOL.  De fato, a escalação da equipe foi praticamente idêntica ao time que venceu o Peñarol nas quartas-de-final com apenas uma alteração: Hector Gonzáles no lugar de Mauro Navas, expulso contra os uruguaios. Assim, o Racing enfrentou o Sporting Cristal com González; Mac Allister, Úbeda, Serrizuela e Galván; Hector González, Capria, Michelini e Córdoba; Marcelo Delgado e Martin Villonga.

No duelo de volta, a virada do Sporting Cristal é atribuída aos atleticanos pela greve. Contudo, o Racing praticamente repetiu a escalação mais uma vez. Foram nove titulares em comum ao primeiro jogo, com Mauro Navas retornando de suspensão e Claudio Marini substituindo o lesionado Córdoba. O duelo em Lima, porém, foi marcado por jogadas ríspidas, duas expulsões para cada lado e uma goleada impiedosa do Sporting que venceu por 4X1.

A história da influência de uma greve na disputa daquela Libertadores é desmentida também pelo jornalista Cláudio Mauri, responsável pela cobertura do Racing na competição daquele ano. Além disso, a crônica do próprio Cláudio publicada no importante diário La Nacion no dia da partida reafirma o compromisso do Racing com a competição, a força máxima disponível e sequer fala no tema greve.

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O Sporting Cristal, entretanto, foi superior e garantiu sua classificação para a decisão. Na final, todos sabemos o que aconteceu. O Cruzeiro alcançou o bicampeonato da Libertadores, status que somente ele pode ostentar em Minas Gerais. Aos atleticanos, como visto, resta mentir e falar que a greve influiu nos rumos da competição e falsear que a Libertadores vencida pelo time celeste tem menor valor. Afinal, quem tem menos quantidade, tenta se legitimar pela qualidade. E na falta de bons argumentos, o faz na base de mentiras!