Silêncio na zona mista do Cruzeiro


O futebol nasceu durante o período da Revolução Industrial, em Londres, Inglaterra. Seu surgimento foi uma estratégia de políticos e empresários que o usaram para combater os sindicatos dos trabalhadores, que eram explorados em suas jornadas de trabalho nas fábricas. Ainda no século XIX, com o interesse da população no esporte, vários clubes ingleses, em 1890, instalaram telefones nos estádios para que os jornais pudessem cobrir suas partidas. Com essa ação foi iniciada o processo de criação de ídolos.

Mas o que esse resumo sobre a história do futebol tem a ver com o silêncio dos atletas cruzeirenses na zona mista? Muito. Já naquele período os clubes perceberam que para crescerem precisariam dos jogadores de destaques, os ídolos. São eles, juntamente com a conquista de títulos, que conseguem bons patrocínios para o clube e, consequentemente, mais visibilidade na mídia, que é do interesse dos patrocinadores.

Comercialmente falando a decisão dos jogadores de se calarem após os jogos pode não ser boa, mas analisando a relação da imprensa com eles pode ser justificada. Afinal, não é incomum surgirem polêmicas e situações desnecessárias nesse espaço com perguntas muitas vezes capciosas, direcionadas a determinados atletas, apenas para abastecer os noticiários de alguns veículos de comunicação, que abusam de sensacionalismo e têm pouca ou nenhuma criatividade para oferecer um produto melhor ao seu consumidor.

A decisão de se calarem surgiu em um momento tranquilo do time, que vem de uma sequência boa de vitórias, e disputará a fase decisiva do Campeonato Mineiro. Mesmo navegando nesse mar de tranquilidade é fácil observar o exagero de alguns veículos nas críticas a essa decisão. Fico imaginando se o time estivesse em um momento ruim. “Em crise jogadores fazem greve com a imprensa”, “Para evitar cobrança jogadores se calam”, “Futebol ruim dentro de campo e silêncio fora” poderiam ser algumas manchetes em caso de crise.

Muitos jornalistas se manifestam dizendo que o torcedor fica prejudicado, não tendo acesso à opinião dos atletas sobre determinados fatos. Realmente temos menos informações que gostaríamos de ter, mas hoje existem outras maneiras de conseguir a informação. O site oficial do clube e as redes sociais possibilitam isso. É possível também buscar a informação fora do estado, já que muitas vezes os atletas que jogam aqui têm bons relacionamentos com jornalistas de outras praças.

Não é novidade para a china azul a presença de jornalistas declaradamente torcedores do maior rival no estado fazendo a cobertura do dia a dia do Cruzeiro. Quando não se expõem abertamente é fácil perceber quem é, pela maneira como abordam assuntos similares nos dois times. É o caso da agressão de Roger ao adversário no último clássico. O mesmo destaque não foi dado à cotovelada do jogador Escudero a um jogador do Vila Nova, na verdade nem houve questionamento.

Portanto, pela falta de coerência e transparência dos veículos de comunicação de Minas Gerais e seus jornalistas, (lembrando que não são todos, mas a grande maioria) apoio a decisão dos nossos guerreiros de se calarem naquele espaço. Vale lembrar também que durante a semana na Toca da Raposa II, no intervalo dos jogos e ao fim deles, pelo menos dois jogadores concedem entrevistas.

Compreendemos que essa relação, imprensa/atleta, é uma via de mão dupla, um depende do outro. Mas não adianta subirem no pedestal e fazerem discursos prontos aos jogadores ou à torcida dizendo que “jogadores, vocês dependem da mídia para trabalhar e ganhar dinheiro”, ou “se não fosse a imprensa vocês não seriam nada”, porque a mídia também depende deles para sobreviver. Rádios, jornais, revistas, sites e tevês ganham muito dinheiro explorando jogadores, torcedores e clubes.
Sugiro aos colegas jornalistas que deixem a preguiça de lado e sejam mais criativos para preencherem os espaços em seus respectivos veículos. Muitos atletas atualmente têm seus próprios assessores de imprensa. Não esperem que o clube dê todo o material que vocês precisam numa bandeja de prata. Mais uma coisa, respeito é bom e todo mundo gosta, inclusive o torcedor.

Foto: VipComm