A torcida tem obrigação de lotar o Mineirão?

No dia 22/04, durante o programa Bastidores (Rádio Itatiaia) comentaristas reclamavam sobre a falta de público no estádio para “um jogo de extrema importância, um clássico, a semi final do importantíssimo Campeonato Mineiro”. Ao mesmo tempo e com a proximidade da final, uma velha discussão tomou conta das redes sociais entre os torcedores celestes: ir ao estádio é obrigação? Ofensa pra lá, ofensa pra cá, entre modinhas e caga regra, um querendo ditar o modo do outro torcer, ninguém se entende.

Vamos lá: ir ao estádio é uma forma de lazer. Assim como ir ao cinema, teatro, shows. Envolve uma paixão diferenciada e que vai muito além de explicações? Sim. Mas nem por isso passa a ser obrigação. Logo, é função dos clubes oferecerem condições para que os torcedores tenham vontade de ir ao estádio. Isso passa por sentimento, times competitivos e principalmente pelo lado financeiro. E aí a história fica um pouco mais complicada.

Torcedor não sócio

No Brasil, segundo dados do IBGE, cerca de 70% da população com mais de 10 anos de idade vive com até 2 salários mínimos, sendo que 37% não tem nenhum rendimento. O salário mínimo atual é de 937 reais. Considerando que a torcida do Cruzeiro está dentro da parcela avaliada da população, podemos inferir que a maior parte da torcida tem essa faixa de rendimento. Sim, estou fazendo uma generalização.

O ingresso para um jogo na bilheteria do estádio custa entre 20 e 100 reais sem o desconto para compras no cartão do sócio torcedor. Considerando uma média de jogos por mês e com o ingresso mais barato seriam 140 reais gastos em ingresso, aproximadamente 15% do salário mínimo, considerando que o torcedor arque apenas com o próprio ingresso. Além do ingresso, existe a questão de deslocamento. Em Belo Horizonte, a passagem de ônibus custa R$4,05. Ida e volta considerando apenas um ônibus R$ 8,10. Por mês, R$56,70 gastos em deslocamento. Acrescidos ao ingresso, 21% do salário mínimo.

Sócio Torcedor

Como o site não informa o valor fixo da categoria Cruzeiro Sempre vou trabalhar apenas com o sócio cativo.

O sócio da categoria Copa do Brasil, atual categoria mais barata, corresponde a cerca de 10% do salário mínimo. Uma economia considerável em relação ao torcedor não sócio. Considerando que o torcedor vá a todos os jogos, seriam 16% do salário investidos em futebol. Nas categorias Brasileiro, Libertadores e Tríplice Coroa essa porcentagem vai para 11%, 16% e 22% respectivamente. Acrescidos do valor do transporte público 17%, 22% e 28%.

Sim, o sócio vale a pena

Para o torcedor frequente aos jogos, apenas a categoria tríplice Coroa não é vantajosa com relação aos ingressos comprados em bilheteria (ignorando questões como localização e conforto). Então, é vantajoso sim ser sócio, caso o torcedor tenha condições de aderir ao programa.

Agora vamos voltar ao motivo dessas contas todas: 64% da população vive com no máximo um salário mínimo. Dentre elas, 37% vive sem rendimentos. Dessas pessoas, grande parte precisa arcar com contas básicas como água, luz alimentação e muitas vezes aluguel. Nessas pessoas também são inclusas as que sustentam outras, como pais e mães de família (que sustentam inclusive os menores de 10 anos não apontados na pesquisa). Com essa realidade, é muito difícil ou até mesmo impossível que essas pessoas frequentem a todos os jogos ou se associem ao clube.

Como disse no início do texto, ir ao campo é uma opção de lazer, e o lazer não se contrapõe a necessidades básicas de existência. Por lógica, quando se é preciso optar, é de se esperar que o torcedor escolha ir em um jogo mais importante. Se eu posso gastar 20 reais para ver Cruzeiro e São Paulo, por que vou gastar para ver Cruzeiro e Democrata. Sim, é pelo Cruzeiro. Mas o jogo é outro, a emoção é outra, seja para quem vai em todos os jogos, seja para quem só pode ir a um deles. Além disso, existem outras opções de lazer, que assim como o esporte, são escolhas. Nem todas as pessoas podem optar por ambos, e diferente do futebol que acontece toda semana (exceto finais, jogos decisivos etc.), algumas dessas opções são únicas na vida.

Por fim: ir ao estádio não é obrigação de torcedor. Torcer é obrigação do torcedor. Ir ao estádio é um privilégio que envolve mais questões do que apenas boa vontade. Estar presente ao campo não torna alguém mais torcedor. Estar ausente não torna alguém modinha. As pessoas fazem o que podem. As pessoas fazem o que querem. E isso é um problema delas, só delas.

Por: Naty Andrade