#TetraSemTri Penas que é mentira!

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Sim. É ridículo. O time do sujeito venceu o principal título do país apenas em uma temporada, em 1971, mas ele acha que desqualificar a galeria de troféus do rival com o lema “Tetra sem Tri” é sinal da grandeza do clube dele. Os argumentos, no entanto, são frágeis e o menor esforço em entrar na história do futebol deixa claro! O Cruzeiro é tetracampeão brasileiro e desqualificar é apenas mais uma das mentiras que restam aos atleticanos.

A base para afirmação do título de 1966 como título de Campeão Brasileiro se pauta em três pontos: A história da nomenclatura da competição no Brasil, a história dos campeonatos nacionais em outros países e a cobertura jornalística da época.  E o atleticano achar que #TetraSemTri é uma boa piada, na verdade, só faz rir os cruzeirenses.

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1) História da Nomenclatura e de disputa do Campeonato Brasileiro

“O Cruzeiro não é Campeão Brasileiro de 1966, mas sim da Taça Brasil”. Ao atleticano desavisado que se apega na nomenclatura, tenho uma péssima notícia. O único Campeonato Brasileiro que existe na limitada galeria de troféus atleticana, é o da Série B de 2006, afinal em 1971 o Atlético-MG venceu o “Campeonato Nacional de Clubes”.

“Mas o Campeonato Brasileiro não nasceu em 1971?”. Então, se o critério for nomenclatura, não! Criada em 1959, a Taça Brasil originou uma série de competições nacionais que dariam origem ao Campeonato Brasileiro que recebeu este nome apenas em 1989. Antes disso, a competição foi nomeada de Taça Brasil (1959-1968), Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967-1970), Campeonato Nacional de Clubes (1971-1974), Copa Brasil (1975-1980), Taça de Ouro (1981-1983), Copa Brasil (1984-1986), Copa União (1987-1988), Campeonato Brasileiro (1989-1999), Copa João Havelange (2000) e Campeonato Brasileiro (2001 em diante).

De fato, 1989 marca a primeira tentativa de estabilização da competição nacional definindo um sistema preciso de acesso e rebaixamento e rompendo com a tradição que havia desde 1959 de definição anual de participantes, fosse via competição estadual (caso da Taça Brasil), seja por convite (Gomes Pedrosa e Campeonato Nacional de Clubes). Os convites, aliás, eram parte da intervenção da Ditadura Militar no país que geraram a famosa frase: “Onde a Arena vai mal, mais um time no Campeonato Nacional. Onde a Arena vai bem, mais um time também”. A Copa Brasil, inclusive, chegou a ter 94 participantes em 1979.

Em 1980, por intervenção da FIFA, a recém-criada CBF formatou a Taça de Ouro prevendo acesso e descenso, mas isto ocorria durante o mesmo campeonato com os 4 melhores da Taça de Prata disputando a fase final da Taça Ouro (formada por 40 clubes). A partir de 1981, a forma de classificação voltou a ser os resultados nos estaduais. Palmeiras (1981) e Corinthians (1982) foram alguns dos clubes que disputaram a Taça de Prata, mas alcançaram a Taça de Ouro nestas edições. Já o Santos, nono colocado no Paulista de 1983, foi convidado diretamente para a Taça Ouro, ou seja,  fica evidente que o Campeonato ainda não tinha uma estrutura mínima de relação com a edição anterior, com os clubes variando de acordo com resultados nos estaduais e também conveniências políticas.

Em 1984, a competição voltou a ser nomeada como Copa Brasil e Vasco (7º no Carioca) e Grêmio (3º no Gaúcho) foram convidados. Já em 1985, um Ranking da CBF definiu 20 participantes, campeão e vice da Taça de Prata do ano anterior e 22 clubes classificados via estaduais formaram uma competição com quarenta e quatro clubes divididos em quatro grupos com onze equipes cada.

Em 1986, a CBF visando agradar as federações estaduais organizou um campeonato com 80 participantes! A situação motivou a criação do C-13 que, em 1987 e 1988, organizou a Copa União atropelando a confederação nacional e selecionando os clubes de acordo com suas conveniências. A crise foi solucionada em 1989 com a criação do Campeonato Brasileiro de Futebol que contou com 22 clubes e acesso e rebaixamento definidos, mas que nem sempre eram respeitados, o que levou a criação da Copa João Havelange em 2000. A partir de 2001, as viradas de mesa foram suspensas (2013 merece um asterisco) e em 2003 os pontos corridos foram adotados, enfim padronizando a principal competição nacional, que em linha temporal remete a Taça Brasil de 1959 e que, como esta confusão de critérios de definição de participantes deixa clara, só passou a ser nomeada Campeonato Brasileiro em 1989. O atleticano, portanto, precisa definir. Ou Cruzeiro é tetra, ou Vespasiano não conhece o principal título nacional.

2) História dos campeonatos nacionais em outros países

“A Taça Brasil de 1966 era mata-mata e é impossível ser campeão nacional em 8 jogos”. Outra falácia atleticana é desqualificar a Taça Brasil de 1966 a partir da fórmula de disputa e do número de jogos. O atleticano “esquece-se, por exemplo, que para vencer a Taça Brasil era necessário antes vencer o torneio estadual. O Cruzeiro, para conquistar a Taça Brasil de 1966, precisou vencer antes o Campeonato Mineiro de 1965 em que foram disputados 22 jogos por cada equipe. Ou seja, a Raposa precisou de 30 jogos para alcançar o título nacional. Na disputa do título de 1971, o Atlético-MG (um dos 20 convidados para o Campeonato Nacional daquele ano) precisou de 27 jogos (19 na 1ª fase, 6 na 2ª e 2 na 3ª). Detalhe: Não precisava ser campeão da chave na primeira fase, tanto que foi vice no Grupo B. (Grêmio líder, classificaram-se os seis primeiros).

“HAHAHA. Mas as partidas disputadas em torneio regional não contam”. O atleticano, que gosta de criar regras imaginárias para sustentar seus argumentos, reescreve a história do futebol mundial com alguma frequência e se uma fala como a que abre este parágrafo fizesse sentido, a galeria de campeões de vários países seria modificada.

Na Alemanha, por exemplo, os torneios regionais eram a base para a disputa do torneio nacional até 1963 quando criou-se a Bundesliga. Todavia, a Federação Alemã de Futebol reconhece como campeões todos os clubes que venceram a principal competição do país desde 1903, quando o mata-mata era a fórmula de disputa após as etapas regionais.

Em Portugal, o Campeonato Português teve início em 1934 com oito clubes. Os quatro melhores da liga de Lisboa, dois do Porto, um de Coimbra e um de Setúbal.  Somente a partir de 1945, as competições regionais deixaram de definir os participantes, mas a Federação Portuguesa reconhece os campeões dos anos em que os regionais equivaliam a primeira fase do torneio nacional.

Na Argentina, a lista de campeões é ainda mais antiga e remete a 1891. A falácia de “não podem haver dois campeões no mesmo ano” para desqualificar Taça Brasil e Gomes Pedrosa que foram disputadas concomitantemente em 1967 e 1968 lá, também não cola. A lista de campeões na Argentina diz que em 1936 foram quatro campeões: River e San Lorenzo conquistaram, cada um, dois dos quatro campeonatos disputados naquele ano.

3) Cobertura jornalística da época

Após vencer o Campeonato Mineiro de 1965, o Cruzeiro se habilitou para a disputa da Taça Brasil de 1966, nome que a principal competição nacional do país recebia naquela ocasião.

Naquele ano, 22 clubes (21 campeões estaduais e o Santos, então pentacampeão consecutivo da competição) participaram do torneio. Os clubes eram divididos em disputas mata-mata e foram ordenados de acordo com as regiões que pertenciam.

O Cruzeiro foi alocado na chave Centro, iniciada com as disputas entre Americano de Campos (campeão do Estado do Rio de Janeiro e que na época era um campeonato separado do Campeonato da Guanabara, onde ficavam os clubes da cidade do Rio de Janeiro) e Desportiva (ES) de um lado, Anápolis (GO) e Rabello (DF) do outro. A Raposa, por sua vez, entraria mais adiante no torneio em função do prestígio do futebol mineiro.

Americano e Anápolis, vencedores de seus confrontos, se enfrentaram, a equipe campista seguiu no torneio e foi a primeira adversária no torneio. A equipe celeste confirmou o favoritismo na Chave Centro e venceu o Americano nos dois jogos por goleada: 4X0 e 6X1, habilitando-se para a decisão do campeão da Zona Sul contra o Grêmio, que havia superado o Ferroviário do Paraná na final do Grupo Sul.

Na disputa contra os gaúchos, o único “tropeço” na competição. Empate em 0X0 no jogo de ida, mas classificação assegurada com vitória por 2X1 no jogo decisivo. Com isto, a Raposa habilitava-se para a fase final junto ao Santos (atual campeão), Fluminense (campeão da Guanabara) e Náutico (campeão da Zona Norte e que eliminou o Palmeiras, campeão paulista, em confronto preliminar a fase semifinal do torneio).

Nas semifinais, o Cruzeiro passou pelo Fluminense com 2 vitórias: 1X0 e 3X1. O Santos, por sua vez, eliminou o Náutico e se credenciou para mais uma decisão do torneio. No entanto, não foram páreo para uma das maiores equipes celestes de todos os tempos e novamente o Cruzeiro obteve vitórias nos dois jogos: 6X2 na ida e uma virada espetacular que terminou em 3X2 no jogo decisivo (O Santos foi para o intervalo vencendo por 2X0 e uma virada santista obrigava a realização de um jogo desempate).

A recepção em Belo Horizonte foi digna do tamanho da conquista. Milhares tomaram as ruas e o reconhecimento ao valor daquela conquista foi imediato. Não é necessário sequer montagem em jornal (prática comum entre atleticanos) para atestar isto.

O Jornal da Tarde, por exemplo, escreve assim, ao lado de uma foto de Tostão com a taça da competição: “O Cruzeiro é o novo campeão brasileiro”.

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Já a Revista Fatos e Fotos, uma das principais publicações do jornalismo no período, qualifica o Cruzeiro como “Campeão do Brasil de 1966”, afirmando também  o significado da conquista da Raposa.

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4) Consideração Final

“Mas eu não reconheço e pronto”. Cobrar coerência de atleticano é difícil, eu sei. Mas após tantos argumentos, a questão da nomenclatura da competição segue sendo o principal argumento atleticano, ignorando que o único campeonato brasileiro que tem em sua galeria também não foi disputado com este nome como mostra o gerador de caracteres da TV Cultura em 1971.

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Insistir nesta questão, aliás, faria com que o Atlético-MG perdesse uma das maiores glórias de sua história. A de ser o principal campeão estadual de Minas Gerais.

Entre 1915 e 1957, a exceção de 1933 quando houve uma tentativa de colocar os clubes do interior na disputa, o Campeonato Mineiro era na verdade o Campeonato da Cidade. A competição, aliás, só foi regionalizada em 1958 a pedido da CBD que almejava a criação da Taça Brasil em 1959 com a participação dos campeões de todos os estados do país.

Extraídos os 19 Campeonatos da Cidade do Atlético-MG e os 8 obtidos pelo Palestra Itália/Cruzeiro, a conta de Campeonatos Mineiros fica com 24 títulos alvinegros e 28 títulos celestes (ignorando o Supercampeonato de 2002). Mas não tente argumentar isto com um atleticano, caro amigo. Na métrica dele, “isto não conta”.

Por: João Henrique Castro