Tempos de crise

O Cruzeiro entrou em uma grave crise financeira que começou em 1946 e só foi terminar 12 anos depois. Os motivos da desvalorização foram vários, desde a constante premiação de atletas até a reforma do estádio, na qual os recursos do clube não foram levados em conta.

Na década de 50, a situação ficou tão grave que o time jogou parte de alguns campeonatos sem preparador físico, sem técnico e sem reservas. Até o treinamento estava virando uma raridade. Nessa época o time chegou a passar semanas sem treinar. Certos jogadores, como Niginho, Ninão e Mário Grosso chegaram a jogar sem receber salário, por amor ao clube.

O time do Barro Preto estava tão desmotivo que os jogos contra América e Atlético perderam o status de clássicos. A era do “Cruzeiro Duro”, ou “Cruzeiro Desvalorizado”, como era chamada, conheceu goleadas negativas históricas para outros clubes da capital. Até 1946 o rival alvinegro tinha 3 vitórias a mais, mas depois da crise celeste passou a ter 33 de vantagem, em 1958. As maiores goleadas foram 7 a 3 para o Siderúrgica, em 53, 6 a 2 para o Atlético, em 1947 e 5 a 0 para o América, em 1946.

Não parecia que o mesmo clube que havia conquistado várias vitórias contra times grandes do Brasil estava em um estado tão deplorável. Em 1946 havia goleado o Flamengo por 5 a 1, que foi comemorada como um título pela torcida azul-celeste. Sem falar nas vitórias conseguidas contra o Fluminense ( 3 a 1), contra o América-Rj ( 4 a 0) e dos empates em 1 a 1 contra o quase imbatível time do Botafogo. Até triunfos contra equipes internacionais estiveram presentes nos primeiros anos com o novo nome, como a vitória por 1 a 0 contra o Rosário Central, em Buenos Aires.

Para cobrir as despesas, a equipe jogou diversas vezes no interior do estado. Foram 45 cidades onde o Cruzeiro disputou 89 amistosos, contra 63 clubes. Dessa forma, conquistou muitos torcedores fora da capital e até hoje a torcida cruzeirense é maioria pelo interior mineiro.

Essa grave situação só foi amenizada após a construção da sede social do Barro Preto, em 1956, aumentando gradativamente sua receita com o crescente número de associados.

O prestígio do Cruzeiro foi reconquistado com mais um tricampeonato, entre 1959 e 1961. O clube investiu em um grande time, com jogadores de renome. Fizeram parte do chamado “esquadrão” garotos da base, mais Abelardo (ex – Palmeiras), Rossi ( ex – Botafogo), Raimundinho ( contratado ao América carioca) e  Geraldino, o grande nome da equipe, comprado do Siderúrgica.

Os grandes responsáveis pela retomada do nome Cruzeiro foi uma dupla que reinventou o jeito de se fazer futebol no Brasil e colocou o Cruzeiro entre os times de maior respeito no Brasil e futuramente até do mundo inteiro. Estamos falando de Felício Brandi e Carmine Furletti. O primeiro tinha um espírito empreendedor nunca visto antes no futebol mineiro, além de ser fanático pelo clube ( chegava a receber os jogadores para os treinos com foguetes na época de torcedor). O segundo tinha uma grande visão e um talento especial em encontrar bons jogadores e técnicos pelo país.

Os estádios que recebiam o time azul-estrelado estavam sempre cheios, a equipe havia recuperado a confiança de seus torcedores e atraia novamente a atenção dos jovens. Em alguns anos, a conquista do primeiro título nacional, em cima do Santos, de Pelé, serviria para mostrar de uma vez por todas que o Cruzeiro estava, não só recuperado, mas pronto para desafios cada vez maiores.