O preço da ousadia Cruzeirense

Com uma divulgação ampla da proporção das dívidas do Cruzeiro, e com a venda de Diogo Barbosa, Gilvan voltou a ser pra torcida do Cruzeiro um péssimo gestor e um peso pro clube.

Agora, aparentemente, segundo os comentários dos colegas cruzeirenses, o gestor faz de tudo para tumultuar o ambiente para o seu sucessor. Sucessor este indicado e apoiado pelo próprio Gilvan.

Realmente a política do clube envolve aspectos misteriosos pra quem, como eu, não tem acesso ao que se discute entre conselheiros. Por isso aqui não discuto os boatos, e apenas preciso expressar a minha visão sobre tudo que acontece no clube. Sob a minha ótica, a de um torcedor comum, mas também de jornalista.

Gilvan quebrou o clube?

Não vi nenhum torcedor preocupado com as finanças quando pediu pra contratarem jogadores de peso (vieram Ábila, Sóbis, Thiago Neves e outros bons nomes em um ano e meio). Aliás, o Sóbis, que hoje não agrada ninguém, foi um sonho de grande parte dos torcedores não só em 2016, como também em anos anteriores. Vai dizer que sabia que ia dar errado?

Também não colocam muito em consideração as altas multas pagas pela (burra) demissão de Marcelo Oliveira, e também pela (necessária) saída de Paulo Bento.

Pediam também um ingresso barato para encher o Mineirão. Em 2017 tivemos um dos ingressos mais baratos entre os grandes, mas apenas a 7° média de público do ano entre todos os times brasileiros, e 6° faturamento bruto com bilheteria.

Com o alto investimento, o Cruzeiro conseguiu ser o campeão da Copa do Brasil derrubando dois times bem mais poderosos, o Flamengo e Palmeiras. Flamengo, que fatura aproximadamente 3x mais com as cotas de TV, e 2x mais com bilheteria. Palmeiras, que fatura 66% mais com TV, mais que 2x com bilheteria, e ainda tem um patrocínio master, mas master mesmo, que injeta muito dinheiro.

Esse abismo em relação ao Flamengo e Palmeiras é ainda maior se considerarmos os ganhos com patrocínios. O Cruzeiro ganhou deles porque, além da tradição, tinha um time não tão diferente desses rivais em termos de qualidade. Não foi a camisa que fez milagre, e não fomos nenhuma zebra.

Razoabilidade nas críticas

Se você não vinha percebendo antes que o investimento do Cruzeiro era desproporcional ao que ganhava, ou estava dormindo, ou está sendo meio oportunista, não?

Eu critiquei muito o Gilvan em 2015. Inclusive queria muito sua saída naquele ano, com tantos erros absurdos que cometeu. Mas, ao contrário do que previa, a gestão de uma volta por cima.

Diziam que aquele primeiro semestre pífio de 2016 foi pra pagar as contas, já que vieram estrangeiros a custos muito baixos, e com benefício menores ainda. E treinado pelo quase interino Deivid.

Já a partir do segundo semestre, o nível de contratação subiu muito. E passamos a contratar como se nosso faturamento fosse semelhante ao do Palmeiras, Flamengo, Corinthians…

Tanto que em fevereiro deste ano, o site alemão Transfermarkt divulgou uma lista dos elencos mais valiosos do país, e o Cruzeiro era o primeiro.

Está muito nítido o porquê do Cruzeiro ter sido o clube que mais de endividou nos últimos anos. Os investimentos foram ousados demais. Eles renderam três títulos nacionais, e temos hoje um elenco de valor. É hora de pagar as contas.

“Cruzeiro não precisava dever todo mundo, dava pra fazer os dois”

Se você tiver uma fórmula para que um time com menos receita seja campeão nacional três vezes nos últimos seis anos, sem se endividar, mande seu currículo para os clubes. Todos eles estão precisando de profissionais assim.

Só o Cruzeiro chegou perto do Corinthians em número de títulos importantes nos últimos seis anos. Nem o milionário Palmeiras. Isso porque, apesar dos erros, o clube acertou em muitas contratações, e investiu muito.

“Perrela conseguiu fazer o Cruzeiro competir de igual pra igual sem endividar o clube”

É verdade. Mas ficamos de 2004 a 2012 sem ganhar nada por conta dessa filosofia. Ele sempre vendia os principais destaques, o que o torcedor celeste se desacostumou a ver com o Gilvan, que só vendia quando não tinha mais jeito de segurar.

Outro fator a se considerar fortemente é que, durante a gestão Perrela, não existia o abismo das cotas de TV. Os 12 grandes recebiam o mesmo valor. Havia diferença no valor do patrocínio, mas o abismo das receitas era infinitamente menor.

Gilvan teve que lidar com um outro cenário, e muito mais desfavorável. Aliás, Perrela ajudou na implosão do Clube dos 13, o que gerou imensa desigualdade na distribuição dos recursos da TV.

Gilvan então é um ótimo gestor?

Não. Definitivamente não. Mas é necessário assumir que ele teve bons resultados, e por isso, endividou o Cruzeiro. Aliás, tenho informações de fontes seguras que foi Gilvan quem segurou Mano neste ano, a diretoria queria demiti-lo depois do vexame na Sul-Americana. Seria mais uma dívida nossa a pagar, com a multa do treinador.

Gilvan fez escolhas burras e inaceitáveis, como a contratação de Riascos? Verdade. Está pagando um alto salário por Rafael Marques? Correto. Abusou dos erros especialmente em 2015? Com certeza. Mas estes erros não são os principais motivos para a situação econômica atual. Os três títulos nacionais, sim.

Temos agora um elenco valioso para ajudar a pagar a conta. E inclusive jogadores formados na própria base do clube com potencial de venda.

Na minha visão, considerando nosso histórico e o contexto do futebol brasileiro, só é possível dizer que a gestão dele foi razoável ou boa. Dizer que foi ótima ou ruim, seria um baita exagero. Eu classifico como boa.

Cenário ideal

No mundo dos sonhos, teríamos uma diretoria que inspirasse a confiança dos jogadores, e que também tivesse a capacidade de trazer bons nomes. Como foi a diretoria do Cruzeiro desde a metade de 2016.

Mas, ao mesmo tempo, que pensassem na necessidade de oxigenar o elenco, vendendo alguns jogadores no fim da temporada, até para atrair investidores, e ter dinheiro pra pagar as dívidas.

Isso somado a um departamento de marketing mais inovador e competente, capaz de agregar maior valor à marca e melhorar o faturamento. Algo que acredito ser plenamente possível.

Uma base forte, que forma jogadores de grande potencial, não só pra serem titulares do Cruzeiro, mas com potencial de venda pra Europa.

Além de uma presença institucional forte, pra que o clube atue de forma estratégica para que o abismo das cotas não mais exista. Algo que já vai ser melhorado com a nova divisão dos valores da TV, válida a partir de 2019.