O Cruzeiro virou a mesa no Brasileirão de 1994?

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A mentira atleticana de hoje já foi desmentida com muita qualidade por uma matéria no Portal O Terra por Emanuel Colombari.

O trabalho de Emanuel poupa bastante a coluna desta semana de grandes explicações. Mas como a falsa virada de mesa cruzeirense em 1994 vira e mexe aparece como argumento atleticano, cabe aqui o registro e mesmo alguns apontamentos interessantes sobre o tema rebaixamento, realidade que os alvinegros conheceram em 2005 sem precisar de montagem de jornal como a que reproduzo abaixo e atleticanos costumam usar para “provar” sua “verdade”.

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Em 1994, o Campeonato Brasileiro foi disputado por 24 equipes. Segundo o regulamento, na primeira fase as equipes se dividiriam em 4 grupos com 6 clubes em cada, uma vez que apenas em 1996 o Brasileirão aboliu definitivamente a disputa da fase inicial em grupos, adotando a primeira fase classificatória com todos enfrentando todos até a implementação dos pontos corridos em 2003.

O time celeste estava no Grupo C e fez uma campanha terrível na primeira fase, com apenas 1 vitória e 2 empates em 10 jogos ficando na lanterna da chave. O Atlético-MG, por exemplo, não foi muito melhor: 2 vitórias, 4 empates e 4 derrotas e o 5° lugar da Chave B.

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Conforme o regulamento do ano, os dois últimos de cada grupo disputariam uma repescagem que classificaria os dois primeiros colocados para a fase de mata-mata e rebaixaria os dois últimos para a Série B. Já as demais 16 equipes se dividiram em 2 grupos de 8 times, ficavam imunes ao rebaixamento e disputavam as outras 6 vagas para as quartas-de-final.

Na repescagem, encontraram-se Criciúma e Bragantino (5° e 6° no Grupo A); Atlético-MG e Vitória (5° e 6° do Grupo B); Remo e Cruzeiro (5° e 6° do Grupo C) e União São João e Náutico (5° e 6° do Grupo D). As oito equipes se enfrentaram ao longo de 14 rodadas e com regra estabelecida desde o início da competição: Os dois piores desta fase estariam rebaixados e os dois melhores nas quartas-de-final.

Nesta etapa, a Raposa mais uma vez não foi bem. 5 vitórias, 2 empates e 7 derrotas, totalizando 12 pontos (a vitória passou a valer 3 pontos apenas na edição seguinte do Brasileirão). A equipe celeste fez a mesma pontuação que o Remo, que obteve 4 vitórias, 4 empates e 6 derrotas e os mesmos 12 pontos. A vantagem cinco estrelas no saldo de gols, primeiro critério de desempate, porém, manteve o Cruzeiro na primeira divisão e rebaixou os paraenses.

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“Mas o Remo fez mais pontos na primeira fase”, poderá argumentar o astuto e mentiroso atleticano. Sim. É verdade. Mas o regulamento definia que apenas a pontuação na repescagem definiria os rebaixados. Não houve benefício ou virada de mesa para a Raposa. Da mesma forma, o regulamento permitiu que o Atlético-MG chegasse às semifinais da competição após uma boa participação na repescagem, mesmo tendo feito menos pontos na primeira fase que Paysandu e Portuguesa, que estavam no mesmo Grupo B, mas não foram bem na 2ª fase, evidentemente com nível técnico mais elevado que a repescagem.

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 “Então o Cruzeiro só escapou do rebaixamento por causa de um regulamento esdrúxulo”, argumentará o rival diante da realidade. Este, porém, talvez não saiba que a razão do regulamento de 1994 ter sido tão esdrúxulo foi a disputa de 1993, ano em que o Campeonato, aí sim, parou na Justiça e o regulamento beneficiou, vejam vocês, o Atlético-MG!

CAM escapou da queda em 1993 por imunidade conferida a 16 clubes. Questão judicial gerou o regulamento de 1994.

Em 1993, a primeira fase do Brasileirão contava com 32 equipes divididas em 4 grupos. O inchaço foi motivado por uma virada de mesa em 1992 que resgatou o Grêmio e mais onze equipes da Série B. A Segundona, aliás, não foi realizada em 1993. Definiu-se, por regulamento, que as equipes do Grupo A e B não seriam rebaixadas, ao passo que as 4 últimas colocadas dos Grupos C e D disputariam a Série B de 1994.

A disputa da primeira fase em 1993 ocorreu com as equipes enfrentando-se em turno e returno dentro das suas chaves com a seguinte organização: Os três primeiros dos Grupos A e B avançavam às quartas-de-final ao passo que os dois primeiros colocados dos Grupos C e D disputavam um playoff entre si que decidia dois classificados para o mata-mata final.

Ao final da disputa da primeira fase, o Atlético-MG ficou com a pior campanha entre os 16 clubes com imunidade ao rebaixamento. A campanha com 1 vitória, 2 empates e 12 derrotas é até hoje uma das mais fracas na história do Brasileirão.

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Sentindo-se prejudicado pelo regulamento, o América-MG, melhor equipe entre os rebaixados do Grupo D, e com 10 pontos a mais que o Atlético-MG, decidiu entrar na Justiça Comum questionando a sua queda.

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A decisão americana de entrar na Justiça Comum contrariava, entretanto, as normas da FIFA e a associação internacional determinou a suspensão do Coelho de competições nacionais pelos anos de 1994, 1995 e 1996 (O América não disputou divisão alguma neste período.  Retornou a Série B em 1997, ano em que venceu a competição), mas também que em 1994 não houvesse equipes imunes ao rebaixamento, questionando o regulamento de 1993.

Em linhas gerais, portanto, o Cruzeiro escapou do rebaixamento no campo em 1994! O regulamento esdrúxulo previa a disputa da repescagem para definir os rebaixados e a 6ª colocação na etapa foi suficiente para evitar a queda. Em 1993, no entanto, a ausência de uma repescagem permitiu ao Atlético-MG, mesmo com a pior campanha da competição, permanecer na Série A por mais um ano, motivando a ação judicial americana, a punição ao América e a determinação da FIFA de que não houvessem equipes imunes ao rebaixamento em 1994. Em 2005, no entanto, o regulamento previa que todos os participantes poderiam ser rebaixados. E naquele ano, todo mundo lembra muito bem o que aconteceu!

Sobre as polêmicas edições de 1992 e 1993.

Por: João Henrique Castro