Mulher não é acessório no futebol

Semana do dia 8 de março e todo mundo lembra da mulher, fala que mulher é linda, que as cruzeirenses então, meu Deus! Sou mulher e sou Cruzeiro desde sempre, e se tem uma coisa que eu sei é que esse caminho foi feito de vários nãos, que me levaram a dizer um sim eterno ao meu time de coração.

Você é mulher, não pode gostar de futebol. O que eu nunca pude foi ignorar os gols de Marcelo Ramos, a vibração de Alex Alves, a raça de Ricardinho. Junto com as tantas bonecas que eu pedi, pedia ao “Palhinha artilheiro fazer gol pra torcida do Cruzeiro”.

Meninas são princesas, meninos são jogadores. E eu fui. Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve. Tive toda aquela fase Disney que maioria das meninas tem. Mas mesmo nessas fases, meu manto sempre foi azul. Entre um conto de fadas e outro eu tinha a realidade de sonhar com o melhor time brasileiro do século 20.

Você é mulher, não entende de futebol. Não vai, não pode. Realmente. Nem sei quantas vezes fiquei em casa vendo meu pai levando meu irmão ao estádio. E isso nunca me fez menos torcedora. Fiz questão de entender não só do meu time, mas do futebol como um todo. Li Galeano, me apaixonei por Nelson Rodrigues, acompanhei a história de times que jamais chegariam aos pés do meu, mas que construíram essa pátria de chuteiras.

Meninas não jogam futebol. Vai lá e avisa isso pra Marta, pra Formiga, pra Cris. Conta isso pra Nina e pra May, minhas amigas e que ó: deixam muito marmanjo no chinelo. Eu realmente não jogo nem no videogame, mas isso não me liga nem mais nem menos ao esporte.

Duvido você conseguir discutir futebol com fulano. Fala aí a escalação de 66 então. Me explica a regra do impedimento. Discuto com quem for, defendo meu time onde for, e mesmo sabendo a regra do impedimento e conhecendo o time de 66, tenho que contar um segredinho: decoreba não faz ninguém mais ou menos torcedor.

Uma mulher escrevendo sobre futebol? Duvido. Não só escrevo como posso apontar trocentas outras, porque talento não fica restrito a sexo. E não, não escrevo feito homem. Escrevo como quem tem certeza de cada vírgula que coloca no papel, como quem sabe que cada palavra ali vai encontrar as palavras que outras centenas gostariam de dizer.

Muitas portas já se fecharam pra mim e pra tantas outras no meio do esporte apenas por sermos mulheres (como se ser mulher fosse pouca coisa). Já ouvimos milhares de gracinhas e outros milhares de ofensas. E continuamos aqui porque aqui é o nosso lugar. Somos Marias, Anas, Luizas, Karolinas, Alines e acima disso: somos Cruzeiro.

Mulher não é acessório no futebol. Não é enfeite pra deixar o estádio mais bonito. A gente joga, explica, entende, escreve e grita gol. A gente tem paixão, talento e muitas vezes tem que ter mais paciência que qualquer um pra explicar que estamos num lugar que é nosso por direito. E sinto informar, não precisamos pedir licença pra ninguém, porque enquanto nossa paixão pelo esporte falar mais alto, vamos vestir camisas, faixas, empunhar bandeiras e o que mais julgarmos necessário, porque a gente não torce com genital, torce com amor.

Por: Natalia Andrade