Em dia de show do Cruzeiro em campo, torcida cinco estrelas foi proibida de ir ao estádio

Prezado leitor. O que faço aqui é um desabafo. Falo em nome de centenas que foram feitos de palhaços no dia de hoje e simplesmente proibidos de exercer o direito de acompanhar seu clube dentro do estádio porque os ingressos que lhes eram destinados não foram postos à venda.

Quem viu Fluminense X Cruzeiro pela TV neste domingo deve ter se espantado com a ausência do torcedor cruzeirense, tradicional frequentador do espaço que lhe é reservado no Engenhão. Explico neste texto o que ocorreu e narro quão absurda foi a situação.

Para começo de conversa, os ingressos não foram postos à venda com antecedência, embora a situação não tenha sido avisada. Alguns torcedores do Cruzeiro relataram que foram aos locais de comercialização de entradas na quinta-feira, encararam filas e ao chegar diante das bilheterias ouviram que as entradas só seriam vendidas no domingo a partir das 15 horas.

Pois bem, cheguei ao Engenhão às 14:45 pois estava interessado em ver a preliminar entre Amigos do Djokovic X Amigos do Petkovic que começaria às 15 horas, ou seja, na hora do início da venda de ingressos. Não adiantava chegar cedo, pois ao menos uma parte da partida seria perdida na compra do ingresso.

Quando cheguei, já havia uma fila com cerca de 100 a 200 pessoas na minha frente. Muitas delas, com camisas e outros símbolos do Fluminense. Os cruzeirenses pediam ao policiamento que uma fila só com torcedores com uniforme do Cruzeiro ou RG de Minas Gerais fosse organizada e que depois que tivéssemos nossas entradas garantidas, fossem liberados ingressos aos tricolores, pois não havia clima de rivalidade. A ideia, posta também aos organizadores da bilheteria, era recusada, mas sem uma justificativa para tal. A bilheteria abriu e, durante 15 minutos, cruzeirenses ou tricolores compraram entradas normalmente.

Passado este tempo, a bilheteria foi encerrada, mesmo com o último torcedor que saiu dizendo que haviam acabado de imprimir uma quantia considerável de entradas. De fato, a fila tinha andado muito pouco e ainda restavam ao menos 50 pessoas à minha frente. Diante do fechamento da bilheteria, porém, a organização se desfez e torcedores mais oportunistas buscavam um lugar próximo ao ponto de vendas, deixando tudo uma bagunça.

O mais surpreendente, porém, é que depois disso já haviam cambistas vendendo entradas a 200 reais. Em tão pouco tempo de bilheteria, estes sanguessugas do futebol brasileiro já tinham entradas aos montes. Os cruzeirenses não se interessaram, mas alguns tricolores, no desespero de ver o jogo da taça, adquiriram nossas entradas.

Neste momento, o policiamento fazia sua parte e impedia a entrada de torcedores com a camisa do Fluminense. Eles, porém, saíam, trocavam de camisa ou apenas ficavam sem nenhuma e entravam normalmente. Os mais abusados, ainda gritavam cantos de apoio ao time carioca ou de provocação ao Cruzeiro assim que passavam as catracas.

A partir de então, a organização começou a fazer hora com a torcida cruzeirense, que insistia na ideia de organizar uma fila só com torcedores uniformizados (e por livre e espontânea vontade o fez por várias vezes). Mesmo assim, a bilheteria não abria e nenhuma resposta era dada até que um responsável pela venda de ingressos informou que seria necessário esperar 6 ônibus da Máfia Azul chegarem para que, com a truculência comum às organizadas, assustassem os tricolores que insistiam em tentar nossos ingressos e, aí sim, comercializar novamente nossos ingressos.

Este argumento patético foi repetido insistentemente até o início do segundo tempo, quando a torcida organizada celeste chegou ao estádio, já com ingressos trazidos de Belo Horizonte, o que é normal, afinal era possível adquirí-los na capital mineira. Anormal, porém (ou não), era o fato de alguns integrantes oferecerem entradas por valores entre 80 e 100 reais, diante da polícia, que apenas repetia que só entraria quem tinha ingresso. (A propósito, Gilvan disse que havia cortado a regalia dos ingressos de torcida organizada. Eles compraram bolos e bolos de ingresso em Belo Horizonte sem garantia de venda?)

Neste momento, procurei uma policial e o diálogo a seguir, verdadeiro, parece situação de terra da fantasia. Perguntei: “Agora vão vender nossos ingressos?” E ela me disse: “Já está vendendo. Olha o rapaz ali”, apontando para o cambista a 5 metros de distância. De imediato, respondi. “Ele é cambista! Tá pedindo 80 reais no ingresso”. A policial, sem argumento, pois a organização não passava mais informações, falou. “O que eu posso fazer?”

Em seguida, o organizador da bilheteria disse que não venderiam novos ingressos, ao contrário do que nos disseram durante toda a tarde. Clamei pelo ouvidor do jogo, o que fiz desde às 15 horas, mas ninguém o chamava. Um policial, solítico, me falou para procurar o JECRIM, Juizado Especial Criminal, dentro do Engenhão, para prestar queixa.

Imediatamente, segui até o local indicado, mas lá os agentes me informaram que não havia delegado para registrar queixa! Solicitei novamente o ouvidor do jogo, mas os funcionários da federação carioca, incluindo um que ria diante de tudo que acontecia durante todo o tempo, se recusavam a chamá-lo. Bati o pé até ele ser localizado e, finalmente, quando o relógio da partida já marcava 47 do segundo tempo, consegui falar com ele.

Nossa queixa foi finalmente registrada, mas de nada adiantava. O prejuízo de perder o que certamente foi um dos melhores momentos do nosso clube no ano, já havia acontecido. Com ingressos guardados na bilheteria ou nas mãos de cambistas, a Ala Norte do Engenhão, como os próprios funcionários da ouvidoria registraram e concordaram no processo, e mesmo com tricolores infiltrados, ficou vazia como jamais havia ocorrido em um jogo do Cruzeiro no estádio.