Agora eu acredito! (Baseado em alguns fatos reais)

Um belo dia em Buenos Aires, tomei cerveja e escutei música com amigos, um domingo de sol, dia lindo, bom motivo para reunir um pouco de gente.

Para presentear o Bruno que gosta de futebol, decidi ir ao jogo do Boca. La Bombonera seria perfeito, sobretudo porque não trabalho mais aos domingos à tarde e o adversário era o Estudiantes, um bom time de La Plata, capital da Província de Buenos Aires. 

Combinei com Fernando, um amigo, de irmos ao estádio comprar os ingressos. Eu tinha que comprar o meu e de mais cinco camaradas de Israel que estão “parando” aqui no hotel. Compramos os sete ingressos com grande tranqüilidade e voltamos pra casa. Almocei uma deliciosa carne ao forno com batatas e fui encontrar os israelenses para, em seguida, irmos à minha casa pegar as entradas e assim, de ônibus, tomarmos rumo ao estádio.

Tudo correu com perfeita harmonia, entramos na charmosa Bombonera. Na arquibancada, ficamos em um lugar razoavelmente bem localizado. Tínhamos ingressos para o setor atrás do gol, a chamada popular. Como já estava quase lotada, não deu para escolher melhor posição. O estádio estava cheio. Me acomodei e fumei um cigarro. Comprei um picolé. Calor danado!

Foi justamente nesse ínterim que eu vi. Eu vi, a uns sete metros, uma camisa listrada em preto e branco com um numero 10 em vermelho nas costas. O rapaz que a usava veio torcer pelo Boca, deduzi pelo seu boné. Claro! Foi aí que me lembrei de um time de futebol lá da minha cidade. Clube importante, centenário. Mas alguma coisa naquela camisa me transmitia derrota. Sim, óbvio! Eu me lembrei dos meus tempos de criança, quando meu pai escutava um vinil de Lennon de um show no Madison Square Garden. Foi nesse tempo que eu me acostumei a ver um monte de camisa igual à que eu vi hoje. E com o passar dos anos me acostumei, também, a ver um outro tanto de derrotas deste clube. O deliciosamente curioso é que quando eu vi esta camisa eu soube que o Boca ia perder. Sei lá, a coisa, pelo que estou sabendo, tá feia pro lado alvinegro e nem é bom deixar que usem esta camisa em outra torcida. Energia. Por vezes eu acredito nessas coisas.

(Pausa. Enquanto escrevo, um canadense vem conversar comigo e me diz que ontem um pombo cagou em sua cabeça, minutos depois que roubaram sua câmera digital, dessas bem caras. Bem-humorado, me conta que, hoje, outro (ou pode perfeitamente ser o mesmo, vai saber!) pombo o presenteou, bem na careca. E saiu rindo, falando que vai pedir para alguém impedir que haja pombos no céu amanhã.)

Fiquei sabendo que outro dia um camarada entrou no estádio para ver um jogo da primeira divisão do Campeonato Vietnamita de Futebol com esta camisa que eu me acostumei a ver quando criança, mas a torcida do time “da casa” o expulsou da arquibancada. Mas tudo sem violência, claro. Os vietnamitas são muito supersticiosos e sabem que aquela camisa pode trazer má sorte e, fatalmente, uma derrota.

Perdi de vista o jovem que a vestia nas arquibancadas do estádio em La Boca. Devem ter pedido, com muita educação e bom senso, que ele se retirasse. Sim, porque eu vi um grupo de boquenses indicando por onde ele devia ir. Fiquei até mais aliviado! Obviamente eu não queria uma derrota dos Xeneizes. Mas o que eu não queria aconteceu. O Estudiantes ganhou a partida. De virada. Mas tudo bem é sempre bom ver o Boca jogar na sua cancha.

Fim de jogo. Sentei, acendi um cigarro e mirei fixo o gramado onde Dom Diego deixou marcas de sua genialidade. Que bobagem isso de falar que se há alguém com esta camisa torcendo por um time, este time perde, pensei, rindo da minha ingenuidade. Uma camisa não pode ser tão poderosa assim!! Além do mais, pediram para que o moço se retirasse. O time de Riquelme perdeu porque tinha que perder e acabou, fim de papo.

Alguém cutucou meu ombro direito, virei para ver. Era um rapaz de boné azul do Boca me perguntando, por mímica, se eu tinha isqueiro. E então, de muito perto, me deparei com a camisa de listras verticais em branco e negro, aquela de um time de futebol lá da minha cidade…

Texto escrito e cedido ao site por Bruno Mateus de Vasconcelos, que é jornalista e morou em Buenos Aires no ano de 2008.