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Como se eterniza um cruzeirense

Não me lembro mais se era domingo ou sábado. Era final da Copa do Brasil. Eu estava onde nasci, no meio do nada, lugar com uma natureza exuberante, paisagem bonita, tranquilidade absurda. Nada de buzinas, foguetes e gritos. Canto de pássaros eram a trilha daquele dia inesquecível. Meus oito anos de idade não poderiam ter uma recordação melhor do que aquela.

Meu pai não estava nem aí, ele nunca gostou de futebol, é atleticano, e nem em casa ele estava. Minha irmã e minha mãe conversavam no fundo da sala, acho que estavam mexendo no cabelo ou nas unhas. Eu estava vidrado na televisão. Acho que, com aquela idade, ainda tinha a ilusão que poderia entrar naquele vidro da TV preta de 20 polegadas, da Hitachi, para viver aquilo de verdade. Por isso ficava próximo, na poltrona da frente.

Mas p%%*&!!! Eu ainda não sabia falar palavrão, mas estava com o coração saindo pela boca. Minha mãe não sabendo por que e até hoje não consegue entender. O que era aquilo?

Marcelinho Paraíba queria destruir minha alegria, não parava de se movimentar, chutar, driblar, correr, ameaçar…O ‘Level’ dele neste jogo, no vídeo-game, era 99.

Putz, Jackson!

Andréééééééé!!!!

Cadê você, Oséas?

Marcelinho Paraíba…não!!!!

Pra mim, França sempre foi mais perigoso que o Afeganistão. Com o perdão da piada, um time com Raí, Belletti, Marcelinho, Ceni, Fábio Aurélio e França é uma equipe respeitável.

Quando Muller protegeu para rolar para Fábio Júnior fuzilar, o medo deu lugar à euforia. Mas ainda não era o resultado. O tempo passava. 44 minutos do segundo tempo, faltava pouco para o título cair nas mãos do São Paulo. A tensão começava a dar lugar à descrença. Eis que, num passe errado do time paulista, um fenômeno surge para desafiar a física e jogar o Mineirão no chão.

Geovanni correu, correu forte, correu como nunca, correu com o impulso de milhões de cruzeirenses e passou na frente do defensor Rogério Pinheiro, que acabou sendo expulso. O Mineirão, ensandecido, gritou como se soubesse que o destino tinha escolhido: aquela multidão de azul sairia dali festejando.

Pu¨%¨%##$, mas não há nada mais adequado para expressar aquilo do que um palavrão. C%$%$%%$!! A barreira não queria obedecer o árbitro, ficava a frente, havia uma demora para a cobrança. Uma vida se passou entre o momento da marcação da falta e da cobrança.

Geovanni não quis saber. Correu pra bola pra chutar do jeito que fosse, para atravessar tudo. A bola foi, bateu na perna de alguém e morreu na rede.

Ali, Geovanni, o mundo era seu. Qualquer torcedor do Cruzeiro, se você pedisse, naquela hora, te daria pelo menos metade de todos os seus bens.

Eu tinha oito anos, mas nunca vou me esquecer. Pulei do sofá e eternizei essa cena em minha vida. O futebol me propiciou essa emoção. A marca dos dedos em meu peito sumiram rápido, mas não dá pra esquecer disso nos próximos mil anos.

Obrigado, Geovanni. Você escreveu uma página heroica para que essa paixão permaneça imortal.