Comendo pelas beiradas

Faça um exercício simples de pensar os últimos grandes times do Cruzeiro. Ao menos os deste milênio. Pense em quem eram os laterais de cada esquadrão. Em 2003, tínhamos Maurinho e Leandro. Em 2013 e 2014, uma disputa ferrenha e sadia entre Ceará e Mayke de um lado, Egídio do outro. Nem vou entrar no mérito de lembrar de grandes nomes da nossa história, ainda que seja praticamente obrigado a fazer menção a nomes importantes, como Nelinho, Nonato e o inigualável Sorín.

O futebol é cada vez mais construído pelos lados. Como os professores tanto gostam de dizer, são os jogadores que dão amplitude ao jogo. Abrem as defesas inimigas, fazem com que se torne mais difícil anular o jogo, pois, por mais que meias e atacantes sejam determinantes para marcar os gols e resolver os duelos, não se pode deixar um oponente livre pela beirada, especialmente se este jogador tem facilidade em bater na bola. Os laterais de alto nível acabam fazendo a função assistente dos pontas do passado. Ainda que não precisem cumprir as obrigações defensivas…

Há 20 anos, era impensável um jogador percorrer 15km em um jogo de futebol. Hoje, chega a ser corriqueiro, especialmente nos homens que tem a obrigação de apoiar e fechar o corredor, ir e voltar. Haja pulmão. E a nossa exigência sobre eles, como torcedores, se torna desumana. Até por isso, sempre questionamos tanto os laterais que “não sabem apoiar” ou “não cruzam bem”. Jogadores que tem características mais defensivas costumam ser execrados pela torcida. Não falo de nomes específicos, por mais que possa citar Fabiano e Mena como jogadores que nunca caíram nas graças da China Azul.

Outra peculiaridade do setor é a capacidade que grandes times tem de consagrar laterais “nem tão bons assim”. Mas que dentro de uma engrenagem que funcione bem, rendem acima de suas capacidades e se tornam verdadeiras armas para um escrete vencedor. Que me desculpem os fãs, mas Egídio não é e nunca foi um exemplo de atleta em sua posição. Até pelo notório desequilíbrio entre suas qualidades defensivas e ofensivas.

A reflexão que proponho é simples, será que devemos exigir tanto dos laterais? Um lateral que marca bem pelo seu lado e não tem tanta qualidade no apoio, não pode ter seu valor? Lembrando que a posição é, primeiramente, de defesa. E só “subir na boa”. Bom para pensar em como avaliar Ezequiel e Diogo Barbosa, atuais titulares no time de Mano e que tiveram ótimo início de 2017. Deixo, por fim, uma pergunta. Com a suplência de Mayke e Bryan/Fabrício, temos nomes bons o suficiente para uma grande temporada?