Ainda vai morrer muito inocente

Como diria Wagner Moura, em seu inesquecível personagem Capitão Nascimento, de Tropa de Elite: “o sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente”. Convidando você a refletir a respeito, venho noticiar o desligamento do treinador Paulo Bento do comando técnico do Cruzeiro. O treinador português dirigiu a equipe em 17 partidas, angariando 6 vitórias, 3 empates e 8 derrotas, culminando em um aproveitamento de 41,17% dos pontos disputados. Sob seu comando, a equipe celeste marcou 23 gols e sofreu 28. Pelos resultados, a demissão é até justificada. Mas o futebol não é uma ciência exata e está longe de ser simples, na aplicação ou na compreensão.

Bento chegou ao clube após uma sucessão de erros. Excetuando o pífio trabalho da diretoria em 2015 e focando apenas na temporada atual, Mano Menezes saiu e a efetivação de Deivid foi um desastre. Se os resultados pareceram satisfatórios em um primeiro momento, o time jogava um péssimo futebol (mesmo no campeonato estadual), não empolgava ninguém e foi facilmente batido, sem alcançar a fase final, nas duas competições que disputava: a Primeira Liga e o Campeonato Mineiro. Sem treinador, o Cruzeiro ficou 3 semanas aguardando um novo comandante. Para que o início do trabalho de Paulo Bento ocorresse apenas um mês depois, com o Brasileiro já em andamento.

Tinha tudo pra dar errado. E deu. Na estreia contra o Figueirense, empate por 2 a 2. Os dois gols do adversário vieram em falhas individuais ridículas dos zagueiros Bruno Viana e Bruno Rodrigo. Jogo seguinte, goleada imposta pelo Santa Cruz no Arruda, 4 a 1. O time pernambucano chutou quatro bolas ao gol, teve 100% de aproveitamento. Fábio deixou o gramado com zero defesas (algo que se repetiu na derrota contra o Atlético-PR). Bruno Rodrigo, Bruno Viana, Fábio e Sanchez Miño contribuíram decisivamente nos gols sofridos. Depois veio o América-MG, que marcou em seu primeiro chute a gol no jogo, falha de Bruno Viana…

Poderia listar aqui todos os 17 jogos do Cruzeiro que, em pelo menos 90%, o time teve mais volume de jogo, criou diversas chances, as desperdiçou e foi castigado. Pode parecer loucura, mas o Cruzeiro de Paulo Bento era um time que jogava bem. Tinha um padrão de jogo e uma inteligência tática nítidas para qualquer um que analise esta faceta do jogo. E, de forma inacreditável, raramente vencia jogos. Dominava, pressionava, empilhava situações reais e não marcava. Os roteiros pareciam escritos, repetidos à exaustão, jogo após jogo. “Willian perde gol, Arrascaeta chuta na lua, Robinho machuca, um Bruno zagueiro entrega a rapadura, o adversário chuta uma bola e é gol dos caras”. É ver um mesmo filme, que você não gosta e conhece o final. Mas parece incapaz de trocar a mídia ou fechar os olhos.

Essa repetição se tornou irritante a um ponto que mesmo defendendo a continuidade dos treinadores e vendo méritos no trabalho do português, não lamento sua demissão. Pra ser bem sincero, não defendo mais ninguém nesse elenco. Se os jogadores fizeram algum complô para mudar o treinador, estamos diante do plantel mais mau caráter da história do futebol. E não há cristo que me convença que os atacantes saírem 10 vezes na cara do gol e finalizarem tão mal é culpa do técnico. Portanto, pode ser Mano Menezes, Paulo Bento, Adilson Batista, Jair Picerni ou Jesus Cristo: se atacante não fizer gol, zagueiro não tiver atitude de tirar a bola e o goleiro não pegar uma, vamos perder todos os jogos e parar na Série B. Camisa e tradição não vão adiantar de nada enquanto a incompetência imperar.

Mas neste momento, pouco importa de quem é a culpa. É hora de somar forças e conseguirmos, juntos, sair deste buraco. Espero de verdade que venha o Mano Menezes e ele seja esse ser superior, capaz de organizar a equipe, oferecer a consistência defensiva perdida e fazer os homens de ataque acertarem o pé. A torcida colocou Mano em um patamar sublime, como se fosse ele o próprio Midas, e tudo que ele tocar virará ouro. Que estejam certos e o Cruzeiro retome logo o caminho das vitórias para realizar uma campanha segura no Brasileirão, na metade de cima da tabela. Nós não merecemos passar por esse sofrimento. A hora de reagir é agora. #FechadoComOCruzeiro

Por: Emerson Araujo