Cruzeiro e a Conquista da América

Evaldo, atacante do timaço da década de sessenta, declarou que até os treinos da Raposa lotavam naquela época. “Um simples rachão era motivo para a torcida lotar o centro de treinamento”, declarou ao diário Lance.

E tamanha euforia não era para menos, o time vinha jogando cada vez melhor e a hegemonia no futebol mineiro era total. Foram cinco Campeonato Mineiros seguidos, de 1965 até 1969.

A mais emocionante dessas conquistas sem dúvida foi a de 1967. No segundo jogo o rival alvinegro fez 3 a 0 e a Raposa estava com apenas  10 jogadores em campo. O Cruzeiro não conseguiu apenas só empatar, mas também quase virar. Natal, fazendo dois, e Piazza, marcando o terceiro, tudo nos últimos 30 minutos de jogo. No último minuto Zé Carlos ainda colocou uma bola na trave, após cobrança de falta. Esse jogo ficou na memória dos torcedores como um dos mais emocionantes da história do Cruzeiro.

Em 1968 a CBD terminou com o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e instituiu a Taça de Prata, com algumas equipes nordestinas convidadas. Em 1969 o Cruzeiro deixou escapar o título por um gol, no final empatou com o Palmeiras em número de pontos, mas o time paulista ficou com um saldo a mais, tirando o título da equipe mineira.

Nos anos que se seguiriam o time percorreria o mundo em diversas excursões. Foram, ao todo, 152  viagens diferentes entre 1970 e 1988, jogando tanto contra equipes, tanto contra seleções.

No início da década o clube contratou um empresário, chamado Jorge Guttman para agendar amistosos no exterior, tendo como objetivo um aumento considerável nas finanças celestes. Não foi nada difícil arranjar as partidas, tendo em vista que o time era conhecido mundialmente como “aquele que destronou o Santos, de Pelé”. Ainda naquele ano, quando o time foi jogar na Venezuela, o serviço de inteligência daquele país tomou um cuidado especial com o craque Tostão. O objetivo por trás disso era defender o jogador de um possível sequestro da Força de Libertação Nacional, que já havia feito reféns, como Di Stéfano, do Real Madri, e o piloto de F1 Juan Manuel Fangio. Na Ásia o mesmo foi recebido como o “rei branco” do futebol.

Foram muitas viagens. O time passou por Estados Unidos, México, Austrália, Filipinas, Hong Kong, Indonésia (onde quebrou mais um recorde, ainda não batido: 102.000 pessoas compareceram para assistir a vitória da Raposa por 3 a 1, contra o Dínamo Tblisi, o maior público de um time brasileiro no exterior, incluindo as finais dos mundiais), Malásia, Tailândia, Irã, Espanha, Nigéria, Uruguai, Chile, Bolívia, Colômbia e Equador.

Outro fato que marcou essa época foi a construção da Toca da Raposa, em 1973, o centro de treinamento mais moderno da América Latina. Por isso mesmo foi o local escolhido para preparar a Seleção Brasileira para as copas de 1982 e 1986.

Por falar em Copa do Mundo, em 1974 a Raposa emprestou 3 jogadores para a disputa do torneio: Nelinho e Piazza para o Brasil, enquanto Perfumo foi para a Argentina.

A grande conquista do time na época veio mesmo em 1976, com o primeiro título da Taça Libertadores da América. Feito esse merecido, pois o time chegava a quase todas as finais. Só no Campeonato Brasileiro foram 4: 1970, 1973, 1974 e 1975. O título de campeão das Américas veio contra o River Plate, em 3 jogos. A primeira foi em Belo Horizonte, onde o time da casa goleou por 4 a 1. A segunda, na Argentina, deu River: 2 a 1. Como não havia desempate nos saldo de gols, um terceiro jogo foi marcado, em Montevidéu. A Raposa conquistou o título depois de um emocionante 3 a 2, com gol de Joãozinho, no final, de falta. Esse história já é conhecida por muita gente: Nelinho, o maior batedor de falta do mundo na época, iria cobrar, mas quando se virou para bater a cobrança, Joãozinho se antecipou e marcou para o Cruzeiro. O jogador conta que ainda levou uma bronca de Zezé Moreira, treinador da equipe, sendo chamado de moleque e que isso não poderia se repetir.

O timaço do Cruzeiro, com o melhor trio ofensivo do futebol brasileiro na época, com Palhinha, Jairzinho e Joãozinho ainda naquela Libertadores fizeram parte do jogo que é considerado por muitos o melhor da história do Mineirão: 5 a 4, contra o Internacional, de Porto Alegre. Palhinha (2), Joãozinho (2) e Nelinho marcaram para a Raposa. Esse jogo marcou de vez a rivalidade histórica dos dois times, que se iniciou em 1975, quando os gaúchos tiraram o título de campeão brasileiro dos mineiros.

Essa Libertadores ainda ficou marcada pela goleada de 7 a 1, em cima do Alianza Lima, em homenagem a Roberto Batata, atacante que faleceu na semana da partida, em um violento acidente de carro. Detalhe: o número de sua camisa era sete.

É uma pena que a China Azul ficaria órfã na década seguinte, considerada perdida pelos torcedores do clube, onde faltaram craques e, o mais importante: títulos.  Mas isso fica pra depois.